C26? O Renascimento do Indiepop
Porque Felt, Blueboy, Heavenly, The Field Mice, The Cat’s Miaow estão de volta — ou nunca foram embora.
No final dos anos 1990 e início dos 2000, a troca de arquivos de música na internet começava a derrubar a venda de CDs. Algumas bandas que eu havia conhecido através de catálogos de mail-order e trocando cartas estavam agora disponíveis nos HDs conectados via Kazaa, Audiogalaxy, Soulseek, Limewire, Napster e vários outros. Os fanzines de papel começavam a sumir e a informação migrava para blogs e redes sociais.
Curiosamente, foi nessa época que eu fiquei sabendo da existência da Sarah Records, através de uma fita cassete que o Gilberto Custódio, editor do fanzine Esquizofrenia, me mandou por Correios. Criado em 1987, em Bristol na Inglaterra, por Clare Wadd e Matt Haynes, o selo durou até agosto de 1995 quando, depois de lançar 100 discos, anunciou o fim das atividades.
Criado e administrado sob os ideais do-it-yourself, a Sarah Records parecia algo mágico, com vinis inacessíveis em tiragem limitada de bandas incríveis como The Field Mice, The Orchids, The Sea Urchins, Heavenly, Blueboy; sobrevivia com cartas respondidas à mão, vendas de discos via Correios e em shows minúsculos, dependiam e confiavam principalmente em fanzines como meio de comunicação e destilavam uma aversão ao establishment que me fazia pensar que existiam irmãos ao Norte do Equador. Assim como Postcard na Escócia, Slumberland nos Estados Unidos, a Sarah Records era um selo que reprocessava e aprimorava ideais do punk rock, inspirava-se no pop perfeito dos anos 60 e na famosa C86, compilação em cassete produzida pelo NME, que reunia principalmente bandas independentes de indiepop, ou jangle-pop.
As bandas viviam um momento estranho, onde as tecnologias de gravação ainda não haviam sido completamente democratizadas e o mercado musical ainda dependia de muitos gatekeepers para que alguém conseguisse sobreviver da música. Mesmo assim, a Sarah Records conseguia se manter. Verdade que haviam dezenas de outros selos fazendo o mesmo. O diferencial da Sarah Records era o tipo de bandas que lançavam, sem concessões.
Mas para mim, essa época, início dos anos 2000, com toda revolução de internet, mp3, música grátis, é um grande borrão na minha cabeça. Se você tivesse me dito que décadas depois eu estaria escrevendo sobre uma reunião do Felt, sobre um disco novo do Blueboy, ou do Heavenly, que o Cat’s Miaow finalmente lançaria um álbum, provavelmente eu diria que isso era altamente improvável, que estas bandas desapareceriam no anonimato, que seriam objeto de culto para poucos.
Só que desde 2022, várias delas voltaram a tocar e gravar, bandas novas com integrantes “antigos” surgiram e estão fazendo discos que poderiam perfeitamente ter aparecido no catálogo da Sarah, da Creation, da Fortuna Pop, ou da Slumberland naquela época.
Afinal, o que está acontecendo?
Felt (mais ou menos) de volta aos palcos.
No sábado, 15 de agosto de 2026, no festival Glas-Goes Pop, em Glasgow, três integrantes originais do Felt subiram juntos ao palco pela primeira vez depois de 37 anos. Quase reunião, porque Lawrence Hayward, fundador, vocalista e único integrante constante do Felt, não participou. Subiram ao palco o baterista que gravou todos os 10 álbuns da banda,Gary Ainge; o baixista Marco Thomas e o guitarrista Philip King. A formação ainda contou com Martin Davies nos teclados e Andy Wellings na segunda guitarra. Anunciados como Feel, (tempo presente de Felt) eles tocaram apenas versões instrumentais…até o momento que Stuart Murdoch, do Belle and Sebastian, e a cantora Radhika apareceram para cantar “Primitive Painters”.
O Felt encerrou as atividades em 1989 depois de dez álbuns, cumprindo a famosa missão de Lawrence de fazer dez álbuns e dez singles em dez anos. Apesar de nunca ter feito parte da Sarah Records, nem de participar da cena identificada ao selo, o Felt pode ser considerado um farol de inspiração para todas estas bandas. Sua quase reunião parece estar intimamente ligada a todo este movimento de reuniões e retornos.
O fato de Lawrence não ter participado parece absolutamente natural, dada sua natureza excêntrica e reclusa. E também porque depois do Felt, Lawrence teve duas bandas: Denim e Go Kart Mozart; esta ainda em atividade mas renomeada Mozart Estate. O álbum mais recente se chama “Tower Block in a Jam Jar”, continua numa vertente que flerta com glam-rock como todos projetos pós-Felt de Lawrence. Natural que ele pareça não se encaixar com a “antiga” turma.
“Summer is Here” é do álbum mais recente do Mozart Estate, “Tower Block in a Jam Jar” lançado em 2025.
Depois de 30 anos, The Cat’s Miaow prepara seu debut
Formado em 1992, em Melbourne, Austrália, a banda de Bart Cummings (guitarra, baixo, voz), Andrew Withycombe (baixo, guitarra), Kerrie Bolton (voz) e Cam Smith (bateria) nunca lançou um álbum sequer, apenas singles e EPs em fitas caseiras. Mesmo assim, fãs cultuam a banda e suas cassetes, lançadas pelo próprio selo Toy Town.
Em 2024, a loja e selo londrino World of Echo, iniciou uma série de relançamentos que, segundo eles, serviria para documentar cenas que eles chamam de International Pop Underground, um movimento não organizado de selos e bandas lançadas fora do Reino Unido. Um dos lançamentos foi a compilação “Skipping Stones: The Cassette Years ’92–’93”, uma coleção de 35 faixas do Cat’s Miaow que reúne as fitas lançadas nos primeiros anos da banda. Depois “Songs ’94-’98”, originalmente compilado em 2022, ganhou novas prensagens em 2024 e 2025. As duas compilações organizaram lançamentos esparsos em fitas raríssimas.
O interesse despertado por estas compilações fez com que a banda resolvesse retomar as atividades, entrar em estúdio e gravar um álbum completo, mais de 30 anos depois. Por mais surreal que pareça, o Cat’s Miaow prepara “When You Smiled and Turned Away” para outubro de 2026 via Slumberland. Seria como se o Number 4 ganhasse uma compilação e resolvesse finalmente gravar um álbum (entendedores entenderão).
The Orchids – perfeição preguiçosa
Os escoceses The Orchids é uma das bandas que melhor personifica esse Indiepop dos anos 90. Formada em Glasgow em 1985, lançou seis álbuns até 2014. Depois de um intervalo de quase uma década, a banda voltou com o 7º álbum, “Dreaming Kind” em 2022.
Músicas com três acordes, cantando baixinho, The Orchids sempre teve uma relação meio torta com o Indiepop que insistimos em rotulá-los. Misturando canções descaradamente fáceis, outras pós-punk, e grooves que podem soar estranhos a ouvidos “indies”, a banda parece resistir à simplificação de ser classificada apenas como uma banda “meio Sarah Records“. A longevidade deles, que nunca terminaram oficialmente, e o hiato até o disco mais recente deve ser creditado apenas a uma imensa quantidade de preguiça.
Além do disco novo, duas Peel Sessions, uma de 1990 e outra de 1994 sairam em compacto 7″ pelo selo londrino Precious Recordings of London, especializado em resgatar estas gravações.
Blueboy: reunião sem querer
Em 2024, Paul Stewart, Gemma Townley, Mark Cousens e Martin Rose voltaram a tocar juntos. A reunião aconteceu quase sem querer alguns meses antes quando Gemma e Paul tocaram no lançamento do livro “These Things Happen – The Sarah Records Story” na Rough Trade em Londres. O show em duo foi o estopim para reunir os outros integrantes, e gravar “One”, primeiro single novo em 25 anos. A ocasião comemorava os 30 anos de “Unisex”, o 2º álbum da banda lançado pela Sarah Records. Com Gemma (também do Trembling Blue Stars) assumindo os vocais no lugar do falecido fundador da banda Keith Girdler, eles gravaram o segundo single, “Deux”.
Em maio de 2024 a banda completa voltou a subir no palco depois de 25 anos. O show acabou virando o LP “Live at The Water Rats”, lançado em junho de 2025. Na mesma época uma coletânea de singles do período da Sarah Records foi lançada: “Clearer & Other Singles 1991-1998”.
Ainda em 2024, o Blueboy tocou em um festival na Indonésia, junto com Air, St Vincent e The Bombay Bicycle Club para quase 12.000 pessoas, apesar de continuarem desconhecidos do grande público. Depois de tanta atividade, o novo disco, “A Life in Numbers”, saiu em 2025 e traz treze faixas. Segundo a banda “treze histórias que apresentam toda a vida: perda, arrependimento, empolgação, fracasso, o início do amor, o fim do amor e tudo mais no meio do caminho…“
Esse aliás é um ponto curioso em todas estas reuniões: os temas mudaram porque seus integrantes hoje estão na casa do 50, 60 anos de idade. Mas vamos deixar isso mais para o final.

Faltou minha banda preferida voltar: Field Mice. Mas tem o Gentle Spring.
Para mim, as melhores músicas do Indiepop pertencem ao duo formado por Michael Hiscock e Robert Wratten. Em 1988 eles lançaram, via Sarah Records, o single “Emma’s House” que alcançou a proeza de chegar ao nº 20 da parada independente inglesa. Um feito para uma dupla de teenagers e uma gravadora caseira. Logo depois, a dupla lançou “Sensitive”, uma das minhas músicas favoritas de todos os tempos, e com ela, o mini álbum “Snowball” chegou ao 3º lugar da parada independente em 1989. Antes de se separarem em 1991, Hiscock e Wratten gravaram mais dois álbuns.
Em 1995 Wratten formou o Trembling Blue Stars e Hiscock seguiu sumido até que em 2025 ele retornou com um novo projeto. The Gentle Spring é um trio formado na França com Emilie Guillaumot e Jérémie Orsel, e o álbum de estreia, “Looking Back At The World”, saiu em janeiro de 2025 pela Skep Wax. Guitarras delicadas, melodias beach-boynianas, arranjos acústicos e aquela sensação de que alguém acabou de encontrar uma carta de amor de 1991 não respondida dentro da gaveta. Vindo de alguém que escreveu 50% de “Sensitive”, “Emma’s House” e “So Said Kay”, é algo a se prestar atenção.
Heavenly também voltou. E os integrantes da banda estão por trás da maioria dos retornos. Adivinha porquê.
Se tem uma banda para chamar de “elo perdido” entre o indiepop dos anos 90 e a cena atual, essa banda é a Heavenly.
Amelia Fletcher, Rob Pursey e Peter Momtchiloff são da formação original desta banda de Oxford, criada em 1989 depois do fim do Talulah Gosh. Entre 89 e 1996 lançaram quatro álbuns pela Sarah Records e K Records (do Beat Happening) até pausarem em 1996 depois que Mathew Fletcher, baterista e irmão da Amelia se suicidou.
Os integrantes continuaram como Marine Research e logo depois como Tender Trap e Would Be Goods, até que todos pararam mais ou menos 2014. Em 2023, com Cathy Rogers nos teclados e Ian Button na bateria, o Heavenly fez seu primeiro show ao vivo depois de quase 30 anos.
Como dá para ver no post acima, eu fui nesse show. Empolgado porque não imaginava ver o Heavenly ao vivo. Cheguei no Bush Hall achando que veria uma triste reunião de idosos cansados como eu. E não foi nada disso. Me lembro que a banda estava relançando seus álbuns antigos pela Skep Wax, selo organizado por Amelia e Rob, no melhor estilo do-it-yourself versão anos 2020. Na banquinha, discos, compactos, fanzines, bottons, adesivos e uma ainda modesta seleção de lançamentos de novas bandas.
Depois de relançarem toda sua discografia e trazer de volta a maioria das bandas citadas neste texto, o Heavenly gravou e lançou o 5º álbum da carreira em 2026. Seguindo a tradição de títulos que incluem o nome da banda e honrando a ironia característica, o novo disco brinca com Zeppelin e se chama “Highway to Heavenly”. As 11 músicas não devem desapontar os fãs: a pegada mais punk-pop, letras e temas afiados, tudo muito fácil de dançar e cantar junto.
É confortante a coerência entre “Atta Girl” e “Different Beat”. Eu não esperaria que o Heavenly amolecesse com o tempo, mas a evolução é revigorante. É curioso pensar que são pais, mães, profissionais bem sucedidos em sua vida paralela. Amelia por exemplo, é uma economista com PhD e condecorações nobres na Inglaterra (OBE e CBE) por causa de seus estudos e serviços prestados. Tomara que sua especialização em economia a ajude a tocar a Skep Wax.
Sarah Records parte 2?
Skep Wax é esse selo criado por Amelia Fletcher e Rob Pursey. O casal criou o selo em 2021, está trazendo de volta muitas bandas do antigo catálogo da Sarah Records, e ao mesmo tempo lançando bandas novas. Os primeiros lançamentos misturavam álbuns fora de catálogo da Talulah Gosh e Heavenly e novidades de bandas paralelas da dupla Amelia e Rob como The Catenary Wires e Swansea Sound.
Com apenas um ano, em 2022, o selo lançou uma compilação que parecia ressuscitar a espinha dorsal da Sarah Records. “Under the Bridge” saiu com 14 faixas de nomes como The Orchids, The Luxembourg Signal, Even As We Speak, Boyracer, todas inéditas e gravadas naquele ano. A única música não inédita foi a última faixa, do The Wake.
Dois anos se passaram, e mais projetos paralelos da dupla entraram para o cast do selo, como Panic Pocket. Parecia que a Skep Wax viraria um selo para lançar spin-offs da Amelia e do Heavenly até que “Under The Bridge 2” saiu em abril de 2024. Uma compilação dupla com vinte músicas recém gravadas, indo ainda mais fundo no baú da Sarah Records. The Orchids, Even As We Speak, Action Painting!, Secret Shine, The Hit Parade, St Christopher, Boyracer, Jetstream Pony, aumentavam a quantidade de “ressuscitados” ao lado de projetos novos como Catenary Wires e bandas novas de músicos daquela geração como The Gentle Spring (derivado do Field Mice), Vetchinsky Settings (James Hackett do The Orchids com Mark Tranmer do St Christopher e GNAC) e Mystic Village (de Robert Cooksey, guitarrista da The Sea Urchins).
O volume 2 da coletânea parece ter sido o estopim para o selo engatar lançamentos de álbuns inéditos de bandas adormecidas e, ao mesmo tempo, incluir novos nomes como The Cords, Railcard e British Bird.
Definitivamente a Skep Wax tocou fogo no parquinho do Indiepop e a produção recente anda tão prolífica que parece que estamos falando de um bando de adolescentes com urgência para por seus discos na rua. Se isso não soar para você como 1994, eu não sei como explicar melhor.
Do outro lado do Atlântico, a resistência: Slumberland Records
Criada em 1989 (mesmo ano que começamos o midsummer madness), em Washington, a Slumberland também nasceu inspirada pelos mesmos ideais punks. Integrantes das bandas Black Tambourine e Velocity Girl montaram o selo para lançar seus próprios discos. Produzindo ininterruptamente desde então, o catálogo da Slumberland reúne verdadeiros tesouros de bandas como Sleepyheads, Henry’s Dress, Rocketship, Beatnik Filmstars, Lorelei; nomes importantes dos anos 2000 como The Pains of Being Pure at Heart, Joanna Gruesome, Cristal Stillts, Veronica Falls, Tony Molina, e chegam aos 2020 com um cast ainda mais relevante, com Peel Dream Magazine, The Reds, Pinks and Purples, Jeanines, The Umbrellas e Lightheaded.
Com quase 4 décadas de bons serviços prestados, o selo confirma o interesse renovado e o rejuvenescimento do gênero, misturando relançamentos de catálogo, discos novos de bandas antigas e de bandas novas.
Por exemplo, do seu catálogo riquíssimo, recentemente a Slumberland relançou o debut do Rocketship, “A Certain Smile, A Certain Sadness”, em edição comemorativa de 30 anos. Também está relançando alguns títulos do Velocity Girl, como a compilação de lados B e extras, “1989–1992”. Já na prateleira de retornos depois de um longo tempo temos a Allo Darlin’ que lançou o belíssimo e maternal “Bright Lights” em 2025. As vibrações são tão intensas que desenterraram até um álbum gravado em 1990 e nunca lançado da banda escocesa The Catburgers. Formada em 1986 em Edinburgo, a banda se separou quatro anos depois sem trazer “Galashiels” para o mundo, milagre que a Slumberland vai realizar no final de setembro de 2026.
No rol das ressureições, o Real Numbers, formada em 2014 em Minneapolis, parada desde 2021, se mexeu para lançar “Was It Always This Way?”. Só com músicas novas, o disco te transporta ao passado, com similaridades a Field Mice e St Christopher.
Isso sem contar as boas novidades de bandas “atuais”. The Reds, Pinks and Purples tem lançado álbuns e EPs ininterruptamente, e todos incrivelmente bons, como o recente “Acknowledge Kindness”. Na minha lista de coisas boas de 2024 e 2025 estão Jeanines com “How Long Can It Last”, Lightheaded (foto acima) com “Thinking, Dreaming, Scheming!” e The Umbrellas com “Fairweather Friend”.
Leia mais sobre a Slumberland nessa entrevista com Mike Schullman, fundador do selo. A entrevista foi feita por Rob Pursey, do Heavenly e Skep Wax. E não foi à toa, Skep Wax e Slumberland têm lançado vários discos juntos.
Para entender a história, uma bíblia.
Jane Duffus fazia fanzine nos anos 1990 e acompanhou de perto a movimentação da Sarah Records. Em 2023, depois de alguns anos reunindo depoimentos, pesquisando na imprensa mainstream e alternativa e puxando pela memória, ela lançou “These Things Happen”, um livro com mais de 400 páginas, ricamente ilustrado, sobre o selo que moldou o Indiepop britânico.
Baseada em mais de 120 entrevistas, o livro conta com depoimentos no melhor estilo “história oral” e por isso mesmo é muito divertido de ler. A edição de capa dura tem centenas de fotos das bandas, cartazes, flyers e fanzines da época; uma exuberância que poderia ter sido perdida na transição que vivíamos no final dos anos 90 com a chegada da internet.
Minha tendência a racionalizar me faz perguntar: por que agora?
A tentação de chamar tudo isso de nostalgia é enorme. Mas nostalgia é quando você compra novamente o disco lançado em 1994.
Um cataclisma parece ter sido causador de tudo isso: COVID. Depois do isolamento forçado de 2020 até 2022, muitos integrantes parecem ter achado tempo para vasculhar os arquivos e voltar ao que mais gostam: fazer música. A maioria dos músicos de bandas da Sarah Records está hoje na casa dos 50, 60 anos, com vidas estruturadas em torno de família e trabalho.Talvez a rotina os tenha distanciado da música. O tempo em casa, o isolamento quase existencial parece ter aberto estas brechas.
Nos anos 90, estas bandas simplesmente não eram sustentáveis. Em algum momento entre o final do século passado e o início deste, as bandas acabaram; cada um foi tocar sua vida. Trinta anos depois, presos em casa e com recursos de produção inexistentes nos anos 90, as músicas nunca lançadas começaram a aparecer. O DIY trocou o porta-estúdio pelo computador. O ímpeto do trio papel-tesoura-cola foi para a internet. Depois de mexer nos arquivos, encontrar os velhos amigos, músicas novas apareceram.
Mas e a essência? Continua a mesma? Se você ouvir as músicas, conferir os temas e as letras e acompanhar a movimentação tímida de todos estes nomes, vai perceber que sim. Em sua essência, o Indiepop nunca se imaginou como uma carreira a ser encerrada. Idades avançadas não significam estagnação. A essência sempre esteve e ainda está em produzir, independente do que manda o mercado. Do it yourself, junte seus amigos, monte sua banda, ensaie, grave, lance fitas, compactos ou vinis; produza shows, faça o poster, o flyer; escreva o fanzine, leia fanzines e dê entrevistas para fanzines e blogs.
São quase senhores, quase senhoras, em algum quarto gravando em quatro canais. E se juntam a pessoas de 20 e de 30 anos fazendo o mesmo, por identificação e necessidade.
Links:
Sarah Records Bandcamp – todo catálogo para ouvir, baixar, comprar.
Sarah Records website – com fotos, discografia completa, links para ouvir.
Skep Wax Bandcamp – selo da Amelia Fletcher e Rob Pursey, com Heavenly, Railcard, The Gentle Spring, Talulah Gosh, e várias outras bandas.
Slumberland Records – um dos selos mais importantes para o Indiepop, casa do Velocity Girl, Black Tambourine, The Pains of Being Pure at Heart, Jeanines e dezenas de outras bandas.
World of Echo – loja e selo londrino que está (re)lançando Cat’s Miaow, vai relançar Hydroplane (banda paralela de integrantes do Cat’s Miaow), relançou The Shapiros, num esforço para documentar o que se convencionou chamar de International Pop Underground, movimentos e cenas DIY espalhadas pelo Mundo. Recomendo assinar a newsletter da WoE, não só pelos lançamentos do selo mas pela fantástica curadoria semanal de lançamentos e discos que aparecem na loja.
Precious Recordings of London – selo londrino especializado em relançar sessões ao vivo gravadas em programas da BBC, como as Peel Sessions.
Chickfactor – fanzine que nasceu em 1992 e escreve sobre estas bandas e outras novidades até hoje.
Links para as bandas estão no texto acima.





