A vida adulta é tão corrida que às vezes você nem se dá conta do que está fazendo. Quando eu me toquei que era uma sexta-feira à noite e eu estava a caminho de um show do Swirlies foi tipo, “jura”? Passei boa parte da minha juventude sonhando com essa noite, e de repente, com 50 e poucos, cá estava eu.
Se você não conhece o Swirlies, uma das frases que eu li a respeito da banda e concordo em partes é que eles são a mais subestimada das bandas ‘shoegaze’ (muitas aspas). Formada em Boston em 1990 por Seana Carmody e Damon Tutunjian, eles lançaram em 1992 a compilação de singles “What To Do About Them” e logo depois os álbuns “Blonder Tongue Audio Baton” (1993) e “They Spent Their Wild Youthful Days in the Glittering World of the Salons” (1996) que são pilares para minha paixão musical por guitarras barulhentas. São uma mistura anárquica e sensual de Sonic Youth, my bloody Valentine com o lo-fi do Pavement. Talvez você não ouça nada disso neles e eu serei obrigado a concordar porque para mim o Swirlies sempre foi uma referência e não uma derivação.
Lá no início dos anos 90 eu comprei os CDs acima enviando dinheiro escondido em cartas para a Parasol Mail Order ou direto para a o selo deles, a Taang! Nunca foram grandes, não viraram cult (ou pelos menos eu achava). O Swirlies era uma destas bandas que eu achava que nunca veria ao vivo, mesmo tendo mudado para Londres. Mas em 2024 eles foram anunciados como atração no Festival Slide Away e a esperança renasceu. Quando anunciaram um show no The Garage, comprei o ingresso imediatamente. Algo em torno de £30, ou aproximadamente R$210. Barato não é. Esse inclusive é um dos motivos porquê eu vejo bem menos shows do que gostaria.
Mas voltando ao dia do show: foi um 31 de Outubro, Halloween aqui no hemisfério Norte, uma noite muita divertida para sair com meu filho de 5 anos e vê-lo sorrir a cada porta aberta com “Tricks or treats”. Putz, eu comprei ingresso pro show na mesma noite de Halloween: queria viver o momento paterno aconchegante mas ao mesmo tempo não perder uma das minhas bandas favoritas. Por sorte no inverno do hemisfério Norte, 5 da tarde já começa a escurecer e eu pude participar um pouco antes de cruzar Londres para chegar no show a tempo de assistir as bandas de abertura: Majken (guitarrista, harpista e pianista sueca produzida por Damon do Swirlies, que subiu ao palco para algumas músicas) e greenstar (jovens londrinos com um pé no post-punk e intenções noise/shoegaze interessantes).
O Garage não estava cheio, talvez 60% da capacidade. Bom para circular, procurar o melhor lugar para ver o show, coisas que ganham uma dinâmica crucial quando você vai a shows sozinho: torcer para nenhum gigante parar exatamente na minha frente; que pessoas com copos de cerveja não fiquem muito próximas; não me posicionar muito perto do palco para pegar a melhor mix; e outras frescuras minhas. Chamo isso (e os relatos do próximo parágrafo) de Estudo Antropológico do Show Indie.
Deu tempo de comprar uma camisa linda do Swirlies, até porque uma camisa deles tem um significado à parte. Pensa comigo: usar uma camisa do Pixies, do Nirvana, do Cure te coloca numa prateleira meio comum. Nesse show eu arrisquei usar minha blusa amarela-ovo da capa do primeiro disco do Beat Happening. Apesar de musicalmente não ter muito a ver, a qualidade lofi do Beat Happening encontra ecos no Swirlies, e ao mesmo tempo, é uma camisa que motiva interação com pessoas de gosto além do comum (um pouco preconceituoso? Talvez). Para sustentar minha tese, antes mesmo do show começar, quatro ou cinco pessoas vieram falar da camisa, incluindo o próprio Damon (que na hora eu não percebi quem era), um cara no banheiro num momento inapropriado e uma mulher linda, que eu desconversei imediatamente porque sou um adulto casado. De qualquer forma, missão cumprida dentro da Antropologia do Show Indie.
Antes do show começar, já dava para saber mais ou menos quais seriam as músicas. No melhor estilo “no meu tempo não tinha isso”, hoje em dia eu sempre pesquiso no Setlist.fm o que a banda está tocando na turnê e faço meu dever de casa ouvindo as músicas mais ou menos na ordem. No caso do Swirlies, só hits! Eu já não me lembro muito bem de cada detalhe porque a vida adulta não me deu tempo de escrever este texto com tudo fresco na memória. Mas logo nos primeiros 15 minutos foram duas das minhas favoritas: “Bell” e “Jeremy Parker”, do álbum de estreia.
As aspas lá em cima no termo ‘shoegaze’ para definir o som do Swirlies ficam evidentes logo nestas primeiras músicas. Ao vivo eles reproduzem as versões gravadas com precisão e com muito mais energia do que nos discos. Ficou mais evidente para mim que são uma mistura de Sonic Youth, Mission of Burma com os teclados, sintetizadores e distorções de guitarra do my bloody Valentine pré-“Loveless” e de contemporâneos como Drop Nineteens e Medicine.
Da formação original, apenas o Damon, no canto esquerdo do vídeo. O baterista Kevin Shea usava uma camisa do “Goo” do Sonic Youth. Os outros três à frente eu não sei quem são, mas com certeza a loira no teclado não é a Seanna. Fiquei na dúvida se era a mesma pessoa do Majken ou, segundo a internet, Deborah Warfield.
Antes da metade do show, a plateia já estava aquecida. Mas o que eu não estava preparado era para o pogo que começou na sétima música de um setlist de 14, em “Wrong Tube”:
Uma constatação nos shows de bandas “de velho” é a faixa etária alta da plateia. Mas no caso do Swirlies, nós, os contemporâneos na casa dos 40, 50, 60 (e, no caso da Inglaterra, até 70) anos estávamos lá, junto com uma maioria de 20 a 30 anos, que me deixou intrigado. Até onde eu sei, Swirlies não tem nenhum “viral”e continua uma banda “obscura” a julgar pelos números dos streamings. Não vou teorizar mas foi uma excelente constatação.
No momento que escrevo este texto, já fui a dois showss do my bloody Valentine (que vão ganhar seu artigo também, calma) e me lembro de compartilhar um vídeo de “Soon” com amigos que ficaram perplexos: “Como assim todo mundo parado?” Pois é, no mbv em Manchester e em Londres a maioria das pessoas ficou paradinha, no máximo dançando dentro do seu quadrado. Já no Swirlies, a juventude começou a pogar no meio do show e não parou até o fim. Muita energia. Em “Pancake”, uma das minhas favoritas do Swirlies, eu tomei coragem e fui:
Obviamente que na parte que aparece no vídeo eu estou apenas perto da roda de pogo, e a melhor parte da música no vídeo acabou cortada porque eu achei prudente guardar o celular e pogar. Fico imaginando o que um punk em 1976, 1977, ou até mesmo eu em 1992, 1993 pensaria disso: um dispositivo que filma, é telefone, pode ser guardado no bolso e te hipnotiza de um jeito maléfico.
Naquele momento em “Pancake” eu tinha fichas de orelhão no bolso, algum álcool no sangue, jeans surrado, guardei o telefone, essa máquina de fazer doido e fui pogar, cantar junto com pessoas de verdade.
Sai suado, cansado e renovado. Nas semanas seguintes a maratona de shows continuaria com Automatic, bdrmm e dois shows do my bloody Valentine. Mas mesmo agora, escrevendo este texto depois de ter assistido tudo isso, nenhum deles, nem o mbv, bate a catarse que foi o Swirlies.


