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Uma entrevista com Mike, ex-Black Tambourine e fundador da Slumberland Records

Rodrigo Lariú 23 jun 2025 Discoteca Básica, Música Comentários desativados em Uma entrevista com Mike, ex-Black Tambourine e fundador da Slumberland Records 790 Visualizações

Eu ficaria muito honrado de ter feito esta entrevista. Mas quem entrevistou o o Mike foi Rob Pursey, guitarrista de bandas como Heavenly, Marine Research, Sportique, Swansea Sound, Tender Trap, The Catenary Wires e atualmente também responsável pelo selo Skep Wax junto com sua companheira, Amelia Fletcher. 

Mike Schulman já tocou numa das minhas bandas favoritas de todos os tempos, o Black Tambourine, e em várias outras bandas, além de comandar o selo que lança as coisas mais legais atualmente. Bandas como The Reds, Pinks and Purples, Autocamper, The Umbrellas, Lightheaded e Jeanines estão entre as novidades de um catálogo que inclui The Pains of Being Pure at Heart, Chime School, Peel Dream Magazine, Allo Darlin’, The Aislers’ Set, Velocity Girl, Boyracer e mais um dezena de bandas incríveis.

Nessa entrevista, publicada na newsletter do selo Skep Wax (que você pode assinar aqui), Mike fala dos primórdios da Slumberland, do desafio de fazer sucesso, e destila admiração e amor pelo frágil ecossistema de selos independentes como o dele, o do Rob e o meu, midsummer madness (apesar de obviamente não ser diretamente citado, me senti plenamente incluído nos comentários e opiniões). Por que a gente ainda faz isso, apesar de todos os contras, foi a melhor pergunta que o Rob poderia ter feito.

Mike, em foto de 2012 (© The Big Takeover)

ROB: E agora a nossa primeira entrevista!
Esperamos fazer mais entrevistas como esta: queremos destacar pessoas que fazem o mundo indie/pop/punk girar. Mike Slumberland é uma dessas pessoas.

Mike, obrigado por responder às nossas perguntas…Podemos começar do começo? Qual era a sua música favorita antes de você começar a Slumberland?

MIKE: Crescendo, eu ouvi muita música em casa, principalmente a coleção de 45 RPM do meu pai com doo-wop e rock ’n’ roll dos primórdios, e o soul e funk dos anos 60 e 70 da minha mãe — e eu adorava. Não ‘entendia’ o rock de verdade até ouvir punk, e como fui um pouco tardio, em 1979, a minha educação punk incluiu os esperados Clash, Jam, Buzzcocks etc., mas também pós-punk, o início da Rough Trade, o DIY do C81, Postcard, No Wave, 99 Records e por aí vai.

Quando fui para a universidade e conheci as pessoas com quem comecei a Slumberland, estávamos super interessados em The Birthday Party, Sonic Youth, Swans, mas também The Jesus & Mary Chain, Flying Nun, Creation, algumas bandas americanas como The Feelies e Galaxie 500, e as bandas que acabariam no C86. Então… para resumir uma longa história, era uma mistura de barulho horrível e pop maravilhoso.

O que fez você querer começar a administrar um selo?

Na manhã seguinte ao show do Jesus & Mary Chain em Washington em novembro de 1985, meu amigo Rob e eu decidimos que iríamos começar a fazer música, mesmo que nenhum de nós nunca tivesse tocado um instrumento. Acabamos envolvendo mais amigos nossos, e depois outros amigos que conhecíamos da rádio e das lojas de discos locais. Tínhamos algumas bandas diferentes (Velocity Girl, Black Tambourine, Whorl, Powderburns), com formações diferentes tiradas da nossa turma, e por volta de meados de 1989 concordamos que deveríamos começar a gravar e documentar o que estávamos fazendo.

Naquela época éramos todos mais ou menos bandas de barulho, mas… diferentes, e não parecia que tentar encontrar alguém para lançar a nossa barulheira crua teria muito sucesso. Como alguns de nós trabalhavam em lojas de discos, sabíamos mais ou menos como funcionava a distribuição, então pensamos que o melhor era fazer por conta própria — e assim nasceu a Slumberland.

Quais são seus outros selos favoritos e o que você gosta neles?

Os selos que me inspiraram quando começamos foram caras como Postcard, Creation, Sarah, K, Narodnik. Selos que tinham uma estética e um ponto de vista claro, e que pareciam estar baseados em torno de uma cena ou de uma comunidade específica. Ao mesmo tempo, gosto de selos que têm um alcance amplo (Soul Jazz, Rough Trade) ou mais focados (Analog Africa), e sempre admirei especialmente os selos genuinamente visionários como Warp, Reinforced, Axis, Basic Channel/Chain Reaction, etc.

Por que a gente faz isso? É um trabalho duro, tem muita burocracia envolvida, as coisas dão errado o tempo todo: pedidos se perdem no correio, discos empenam… Claramente não estamos nisso pelo dinheiro. O que há de errado com a gente?

Eu queria saber! Ainda adoro ouvir novas bandas e novas músicas e sempre me encanto com como pessoas talentosas conseguem criar algo novo a partir de algo tão familiar quanto a música pop. Por mais frustrante que possa ser (e eu sinto que a cada ano fica mais difícil), nada se compara à sensação de ver uma banda que você ajudou receber a atenção que merece. Acho que ainda tenho essa crença ingênua no poder de uma grande canção pop e, enquanto sentir que posso ser útil às bandas, vou continuar nisso.

The Pains of Being Pure at Heart

Todo mundo quer um sucesso, mas você acha que existem desvantagens quando um lançamento começa a dar sinais de estourar e ficar realmente grande?

Não tenho experiência com discos ficando realmente grandes, mas certamente existem desafios logísticos quando um disco recebe um pouco mais de atenção. Pode ser bem difícil convencer lojas a trazerem discos de selos pequenos, e já passei por muitos casos em que havia claramente demanda, mas as lojas não estavam na mesma sintonia. As vendas por correio e de merch das bandas ajudam, mas nada substitui ter discos nas prateleiras para chamar a atenção de quem ouviu falar de uma banda ou disco, mas ainda não se esforçou para fazer um pedido por correio.

E, como sempre, finanças limitadas podem ser um problema — vender mais discos significa fabricar mais discos, o que sempre é arriscado. Só porque parece que há demanda por um disco hoje não significa que essa mesma demanda ainda vai existir daqui a 4 ou 6 (ou 8 ou 10…) semanas quando você receber mais da fábrica.

Uma das coisas que mais amamos em administrar um selo (e estar em uma banda) é a camaradagem que une outros selos, promotores, bandas e escritores. Isso é algo que você sente (em casa e/ou no exterior)?

Com certeza! Ironicamente, ou talvez quixotescamente, sinto isso um pouco mais no Reino Unido quando vamos lá visitar e ver bandas, porque acho que as pessoas simplesmente entendem mais facilmente o que fazemos lá. A cena indie dos EUA pode ser bem esquisita com discos pop! Mas sinceramente acho que talvez eu não tivesse tido motivação para continuar por 35 anos se não fosse pela comunidade incrível da qual temos a sorte de fazer parte. Pode ser geograficamente dispersa, mas o International Pop Underground é real — e graças a deus por isso!

Você acha surpreendente que selos independentes ainda existam na era do streaming? Vamos sobreviver a isso? Será que oferecemos algo com o qual os streamings não conseguem competir?

Não acho surpreendente, já que ainda estamos em uma fase meio de transição, mas para ser honesto não sou muito otimista sobre o futuro dos selos pequenos. Embora eu sinta que minha vida musical foi moldada pelos selos independentes que amo, não tenho tanta certeza de que essa relação vai existir da mesma forma para as próximas gerações de fãs de música.

Para me sentir melhor, às vezes tento ver os streamings mais como um rádio glorificado e menos como uma máquina sem alma, movida por algoritmos, que distorce o gosto dos ouvintes e substitui ativamente as vendas físicas que tornam possível fazer um selo indie. Aposto que tem muita gente que vai aos shows das bandas da Slumberland e compra os discos porque ouviu a música primeiro no streaming, e acho que a batalha sempre vai ser como transformar esse boca a boca ou descoberta aleatória em apoio concreto. Um problema que antecede o Spotify!

Jeanines

Conte um pouco sobre os lançamentos atuais da Slumberland — e, por favor, explique como podemos comprá-los!

Como sempre, planejei um cronograma de lançamentos muito mais ambicioso do que seria sensato, mas nunca fui muito bom em dizer não! Até agora neste ano lançamos o segundo álbum do The Laughing Chimes e reedições cruciais do The Pains of Being Pure At Heart e do Lunchbox. No fim de junho vêm novos álbuns do Jeanines e do Lightheaded (co-lançado com o selo independente Skep Wax), o brilhante álbum de estreia do Autocamper de Manchester (co-lançado pela Safe Suburban Home) e um disco novo maravilhoso do Allo Darlin’ (co-lançado pela Fika Recordings — e como isso é empolgante, né?!).

Tem muito mais vindo neste outono que ainda não podemos falar exatamente agora. Sempre incentivamos as pessoas a comprarem as versões dos selos locais e a apoiarem suas lojas de discos independentes sempre que possível. Mas pedir por correio também é ótimo, e o Bandcamp tornou mais fácil do que nunca conseguir discos de selos pequenos como o SLR.

Obrigado, Mike.
Agradecemos muito.

Saiba mais sobre a Slumberland aqui:
https://slumberlandrecords.com
https://slumberlandrecs.bandcamp.com
https://linktr.ee/slumberlandrecs

Saiba mais sobre a Skep Wax aqui:
https://www.skepwax.com/
https://skepwax.bandcamp.com/
https://www.instagram.com/skepwax

Ouça as novidades no catálogo da Slumberland:

Black Tambourine catenary wires heavenly Peel Dream magazine selos selos independentes skep wax slumberland the reds pinks and purples velocity girl 2025-06-23
Rodrigo Lariú
Tags Black Tambourine catenary wires heavenly Peel Dream magazine selos selos independentes skep wax slumberland the reds pinks and purples velocity girl

Autores

Autor: Rodrigo Lariú
começou a fazer o midsummer madness em 1989, deu um tempo e voltou a fanzinar. Adora documentários, história, aviação comercial antiga, trabalha em televisão e em produtoras, vascaíno praticante.
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